terça-feira, 29 de setembro de 2009

Tour no Deserto: 1a. Parada - Cemitério de Trens


O passeio é feito num 4X4 bem robusto, capaz de levar até 8 pessoas com relativo conforto (eu disse "relativo"). Haviam no carro: três europeus de uns 20 anos (duas inglesas e um irlandês), duas argentinas, nós duas, brasileiríssimas, e o tiozinho boliviano que dirigia.
Primeira parada é num cemitério de trens, que, como o nome diz, é um lugar em pleno deserto onde ficam despejados os trens e vagões que não funcionam mais.


Só que, apesar de na prática ser um depósito de lixo a céu aberto e o paraíso do tétano na Terra, vale a pena por ser um lugar diferente e que, por isso mesmo, permite tirar altas fotos interessantes!

Uyuni - La ciudad!

Basta de posts escatológicos... Vamos ao que interessa...

Uyuni não tem absolutamente nada para conhecer, fora uma pracinha míni, com uma feira míni de bugingangas (lá trás, na foto, onde você pode comprar chapéus, luvas, cachecois e gorros de lã bem coloridos, cheios de desenhos de lhamas) e artesanato local, tipo caixinhas pintadas à mão feitas de sal (Porque a gente sabe que é feita de sal mesmo? Porque a gente provou, oras!).

A pracinha principal tem uma igrejinha amarela. Só.
Paramos para tomar café num restaurante - que estava vazio e era o mais caro da "cidade".
Vejam vocês o menu:
Desayuno simples: Pan, queso, jamón, mantequilla - 10 bolivianos
Desayuno Continental: Pan, queso, jamón, mantequilla e huevos - 15 Bolivianos.

Consideração Boliviana 6: Na Bolívia, ovo é luxo. E em Uyuni, pedir Coca Cola com gelo é quase como xingar a mãe do garçom.
Comemos nosso super café continental, lógico, e fomos fazer nosso tour pelo deserto.

Sobre os banheiros bolivianos...

Tirando La Paz e Santa Cruz, que são cidades maiores, os banheiros na Bolívia possuem certas particularidades que podem provocar experiências inesquecíveis, principalmente se você for um viajante desafortunadamente desavisado.




Sobre as privadas:

Primeiro: Na Bolívia, banheiro e água são coisas distintas. O fato de ter um não quer dizer que tenha o outro.

No caso de Uyuni, por exemplo, e de quase todos os hostels que fomos por lá, só tem uma privada para uso de todo o hostel. E, pasmem, como estamos num deserto e a água é escassa, a descarga só é dada uma a duas vezes por dia!



Sobre os chuveiros:

Geralmente, só tem 1 para uso de todo o hostel. No de Uyuni, luxo dos luxos, tinham dois, mas que tem tempo para ser usado, e todo mundo só tem um determinado horário para tomar banho. Então, nada de tomar dois banhos por dia. E a água que sai parece que é em conta gotas 3D - três filetes de água, todos saindo do ponto 0 (chuveiro) e cada um seguindo uma trajetoria x, y, z. Então, só dá para no máximo molhar a cabeça, um braço e um pé ao mesmo tempo, porque a água é mínima.



Sobre as portas:

Raras vezes fecham. Quando existem, mal fecham. E tivemos o privilégio de ver um banheiro que nem porta tinha - era uma casinha do lado de fora, em pleno deserto, com uma cortininha de box safada para fechar. Além do incômodo de você ter a sensação de que todo mundo vê o que você está fazendo (por mais que seja no meio do deserto e que você saiba, racionalmente, que não tem ninguém ali), vale lembrar que a temperatura no deserto à noite é quase zero graus - e você ali, tentando tirar a roupa, segurar a cortininha, atender ao chamado da natureza e não congelar ao mesmo tempo.



O porquê deste post? No dia seguinte à nossa chegada em Uyuni, fomos tomar um banho no hostel (o tal luxuoso dos dois banheiros). A privada era exatamente a que lhes descrevi. O chuveiro, 3D também. E tenho que dizer a vocês que também foi o melhor banho que tomamos em três dias... Para vocês terem uma idéia do que nos aguardava...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Chegando em Uyuni - Check-in e Reserva do passeio

O trem chegou em Uyuni em torno de meia noite, num frio de rachar. E quando amanhece, é um calor dos infernos. Normal. E isso tudo num clima bem seco. A garganta vai pro saco.

Na cidade tem dois albergues só, sendo que um é da Hi Hostels, então é bom fazer reserva com antecedência antes de chegar lá. Senão vai dormir, literalmente, na praça.

Ficamos no albergue da Hi Hostels, e assim que chegamos já fizemos a reserva do passeio de 3 dias pelo deserto. Para quem quiser, existem várias opções, descritas no mapinha abaixo: um dia só (só dá para conhecer o Salar e voltar), dois dias (para conhecer as lagoas coloridas) e três dias, com opção de voltar a Uyuni ou seguir para San Pedro de Atacama, Chile. Optamos por essa.


O nosso passeio custou 150 dólares, com tudo incluído (tudo quer dizer: transporte, hospedagem, café, almoço e janta). Lembrando que você está num deserto e que a comida que eles oferecerem é a única que vai ter lá, a menos que você tenha sido super safo e trazido algo). Água é por sua conta, baby!
O hostel é o mais pobre de todos os que ficamos (na foto abaixo), então só tinha um banheiro feminino e um masculino (que estavam fechados e vc só podia usar para tomar banho numa determinada hora do dia, então ficava aquela fila só), não tinha café da manhã. O lance era dormir e descobrir algo para comer no dia seguinte. Delícia...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O que você precisa saber antes de ir para Uyuni

Altitude:

Uyuni é uma cidadezinha (inha!) que fica no meio dos altiplanos bolivianos, a aproximadamente 3.650 metros de altitude (mais alto que Macchu Pichu, portanto, que fica em torno dos 2.400). Então, de cara, o que você pode sentir, e muito, são os efeitos da altitude. Cometemos o erro de ir muito rápido de uma cidade com altitude bem mais baixa para outra bem mais alta. Se você quiser fazer o passeio e tiver tempo, tente ficar pelo menos uns 3 dias em uma cidade com altitude menor, pelo menos, para o seu corpo ir se acostumando com os efeitos.


Mal-estar:


Mas se você for guerreiro que nem a gente, prepare-se psicologicamente: a dor de cabeça é insuportável (fica latejando, interminavelmente) e dificilmente alguma coisa melhora. Eu tomava uma média de 2 a três analgésicos dia (e com isso a pressão ia lá pra baixo. Ou seja, piorava ainda mais). Outra coisa é o enjôo. Há quem vomite feio com tudo o que se comia (eu!) e há quem não, mas a comida nunca desce bem, é difícil digerir. E para quem tem taquicardia também é bom levar algum remédio, porque lá pequenos esforços (andar 20 metros) parece que vai fazer o coração saltar da boca.


Ajuda: Leve analgésico, se possível pão ou sanduíche (qualquer coisa menos temperada possível) se seu estômago for meio sensível, chá ou balinhas de coca como as da foto abaixo (não, não dão barato nenhum, e pelo contrário, são remédios e ajudam bastante contra o mal estar) e compre um remédio chamado Soroche Pills, que é contra os males da altitude. 2 por dia - foi o que nos salvou lá...


Higiene:


É uma cidade no meio do deserto. Então, comprem tudo antes de chegar lá, porque dificilmente vocês vão achar algo semelhante a uma farmácia. Recomendo comprar antes e levar na mochila:


-Água;


- Papel Higiênico (os banheiros quase nunca tem água, que dirá papel. Preferem tentar a sorte?);


- Hidratante para o corpo (Uyuni fica no meio de um deserto de sal, ainda por cima... A pele fica branquinha de tão ressecada! Então escolha o mais emoliente possível).


- Hidratante labial (absurdamente necessário, se você ainda quiser ter lábios quando voltar);


- Protetor solar (protege do sol, do ressecamento e do frio também, que faz à noite);


E, por fora, eu sugiro ainda às meninas que comprem aqueles pacotes de baby wipes, de neném, sabe? Teve um dia lá que não deu para tomar banho porque simplesmente não tinha água. Então esses lencinhos quebravam o galho pelo menos para tirar a crosta de poeira da pele.

E porque lhes digo isso? Porque, como digo no meu perfil, minha paixão por viagens é diretamente proporcional à minha preocupação com a estética. Então, força na necessáire!! Porque de nada vale visitar um lugar mega-maravilhoso e não ter coragem de mostrar as fotos depois porque saímos "o-cão-chupando-limão" nelas!


Acessibilidade


Não sei quanto aos outros mochileiros que já visitaram (e por favor, deixem comentários), mas só vi um computador, e mesmo assim era da tia do hostel. Não vi nada parecido com uma lan house. Sinal de celular, então...

Trem da Alegria - Uyuni


Quem leus os posts anteriores (ok, reconheço que ficaram compridos! Prometo maneirar a partir de agora!) deve se perguntar o que a infeliz que vos fala está fazendo indo para Uyuni, cidadezinha que fica no fiofó da Bolívia, já que tudo o que se refere ao país beira a tênue linha que divisa o caos do fim de mundo.

Bom... É uma faca de dois legumes... Foi o país que passamos os maiores perrengues - e foi também onde tiramos as fotos mais iradas da minha vida (vide a imagem que ilustra o header desse humilde blog. Not by Google - by my tiny little camera).

E como prometi pegar leve no texto dos meus posts a partir de agora, seguem algumas fotos tiradas ao longo do caminho do trem até Uyuni. Importante dizer que, à medida que o trem vai subindo, a paisagem vai mudando do verde para umas planícies rochosas e por fim, meio desérticas... Mas aí já tava de noite e a gente já tava cansada!




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Llegamos!


Villazón é uma cidadezinha minúscula, que só parece e uma rua principal e que passa pela cidade toda até levar à estação de trem.

Curiosidades interessantes sobre a Bolívia (isso tudo eu ouvi num city tour no meu último dia de viagem, mas eram coisas que eu já tinha observado na prática. Então desde já eu conto pra vocês):

  • 90% das estradas bolivianas não são asfaltadas, então quando você vir uma, sinta-se um privilegiado. Importante: o fato de ser asfaltada não quer dizer que ela seja reta ou sem buracos. Isso, para eles, só no Céu;

  • A média de filhos por mulher na Bolívia é 5 crianças/mulher (!!!). Isso é a média nacional! Lógico que tende a ser muito mais alta em lugares mais afastados e pobres (e Villazón é um deles). Logicamente, a mortalidade infantil é altíssima também.

  • A aposentadoria só é permitida para os Bolivianos a partir dos 65 anos. Porém, a expectativa de vida de um boliviano é de 60 anos (homem) e 65 (mulher). Resultado: eles trabalham, e muito, até morrer. E ganhando muito pouco. Isso justifica o fato de vermos várias senhorinhas e senhorinhos trabalhando pesado (carregando peso, andando quilômetros) pelas ruas;

  • A fonte principal da economia do país é o gás natural (e o maior cliente é o Brasil). A segunda maior renda, bem atrás, é a coca, vendida legalmente para produção do chá, balas, essas coisas, e ilegalmente para "nuestros hermanos colombianos" - adivinha para que?? Não é de espantar, portanto, que de vez em quando o Evo Morales dê um piti lá e feche o fornecimento de gás para o Brasil. Eles sempre se acham explorados;

Na avenidona principal da cidade (a que está na foto de cima e a última do post anterior) é a que leva da fronteira até a estação. Anda-se, e muito. E é difícil de respirar também. O ar é extremamente seco e a gente ainda não estava acostumada nem com a altitude, nem com a umidade. Paramos para trocar dinheiro (100 dólares dá para comprar 750 bolivianos mais ou menos, e em lugares como Uyuni e Villazón simplesmente dá para passar muito tranquilo - até com, digamos, luxo.

Observação importante sobre o dinheiro na Bolívia:

  • Evite ir à casa de câmbio sozinho, evite manusear muitas notas, evite que os outros vejam onde você está guardando seu dindin. Eu sei que é redundante falar isso pra um viajante, mas, repito, isto é a BOLÍVIA;

  • Deixe o dinheiro guardado em lugares diferentes do corpo, mas tenha à mão alguns trocados porque para tudo eles pedem propina (gorjeta) que é sempre algumas moedinhas de 1, 2 ou 5 bolivianos;

Depois fomos até a estação (na foto) comprar bilhete do trem (só sai um por dia, em torno de umas 15 horas). Como eram ainda umas 8 da manhã, tínhamos ainda um bom tempo para ficarms morgando pela cidade. E bom é que, se de manhã estávamos com medo porque éramos as única com cara de gringas, aos poucos foi chegando jovens de tudo quanto era lugar do mundo. Tchecos, americanos, canadenses, argentinos, ingleses... Teve uma hora que os locais é que eram minoria.

Compramos, cada uma, duas garrafas de 2 litros (sempre leve sua água, evite tomar a de qualquer lugar por aí. Ou opte pelos refrigerantes, que pelo menos tem as embalagens vedadas), um pão enorme, massudo e duro que nem o cão e sentamos para esperar.

Outra coisa é o clima: de dia o sol vai aparecendo e fazendo um calor senegalês. À noitinha a temperatura cai absurdamente! Então, por volta de meio dia eu fui tentar achar algo para comer.

Não aguentei andar muito por causa do calor. Mas achei uma feirinha enorme e paupérrima onde se vendia de tudo: peruca usada, roupas, souvenirs, pentes sem dente, rádios antigos.

E umas mil barraquinhas que vendem "pollo asado". Que é, basicamente, o seguinte: um panela gigante (tipo as de pastel das nossas feiras de rua), cheias de óleo fervendo da cor de uma Coca-cola, cheio de franguinhos inteiros (exceto pés e cabeça) e desnutridos boiando lá dentro. Aí a pessoa escolhe qual que vai querer e a tiazinha boliviana vai lá e pega o "pollito" - com seus próprios dedinhos!!! -, dá aquela sacudida para tirar o excesso de óleo (ahhh, agora sim!) e bota num guardanapo para o cliente.

Por motivos óbvios, eu dispensei. E não comi "pollo asado" em toda a viagem (tudo bem que nem todos eram assim... mas a imagem não saiu da minha cabeça...

Achei um lugar lá que vendia queijo fatiado, lacrado (Artigo de luxo!!! Podre de chique, eu! ) e comprei. Se ia estragar ou não, com aquele calor, nem entrei nesse detalhe. Primeiro, porque a quantidade de coliformes fecais nele certamente seria infinitamete inferior que comer o pollito". E que, no deserto boliviano, comer pão com uma fatia de queijo e água é manjar dos deuses (manteiga? hã? Quer manteiga vai procurar, fio!).

15:00, pegamos o trem!

Atravessando a Fronteira...

Chegando ao ponto tenso da viagem...

Aliás, os dois pontos mais tensos da viagem foram na Bolívia... Acho que tem a ver com a primeira prerrogativa boliviana de que lhes falei no post anterior.

Chegamos em La Quiaca, depois daquela viagem super confortável (cof! cof! cof!) ás 7 da manhã, horário previsto.

Pausa para um comentário: viajar pelo mundo com os paradigmas de brasileiro de como as coisas funcionam aqui e acreditar que lá será de modo semelhante é furada - principalmente na Bolívia. Eu já sabia disso, mas volta e meia incorro no mesmo erro.
Paradigma 1: Eu havia optado por chegarmos de manhã cedo pois assim poderíamos cruzar a fronteira com tempo, tranquilas, e o dia estaria clareando... Tava um breu do Ó.

Paradigma 2: Teoricamente, eu achava que o ônibus pararia, já que era parada final, em algo que se assemelhasse pelo menos um pouco com uma rodoviária - ainda mais considerando que ainda estávamos no território de nuestros hermanos argentinos, e não ainda na Bolívia. Ledo engano!

Paramos num fim de mundo, no escuro, num lugar onde as ruas eram poeira pura, um monte de casinha baixinha de cor indefinível, com vários Evo Morales esperando para a gente descer e com isso eles subirem no ônibus. A única iluminação vinha de uma lâmpada amarela pendurada por um fio numa das janelinhas de uma casa próxima, onde - uhu! - funcionava a bilheteria, e só deduzimos isso porque o tiozinho de lá usava um boné da mesma cor que a jaqueta.

Nada de um lado, nada do outro, e aquele bando de Bolivianos que descia do ônibus cheios de sacolas nas costas iam desaparecendo do lugar, parecendo baratinhas correndo para o escuro.

Paradigma 3: Eu havia visto num dos comentários da lista de discussão do mochileiros.com que atravessar a fronteira era tranquilo. Nunca acredite numa fonte só.

Não havia nenhuma placa indicando para que lado ficava a fronteira. Nenhum telefone. A cidade, semelhante a foto abaixo - só que no escuro da noita, tá?E a gente, móóóórta de tensão (únicas branquelas e gringas do lugar), vítimas fáceis de qualquer coisa.



Perguntei pro tiozinho do guichê onde ficava a fronteira com meu portunhol exemplar (ah, já disse para vocês que yo no hablo una palabrita de español? Entonces! Fudió para nuestro lado!). Ele pergunta: "São só vocês duas?", nos olhando incrédulo como se fôssemos dois bebês pré-maturos prontos para escalar o Himalaia.



Nesse momento, Deus, que é pai, brasileiro e também conhece a Bolívia como ninguém, nos envia uma senhorinha muito simpática que se apresenta para a gente e diz ao tiozinho do guichê que vai levar a gente lá, pois também vai atravessar. Ele só olha para ela e diz "Ok, mas atravessem rápido e evitem ficar ali muito tempo!".

Pronto. Nós, que estávamos suuuuuuuuper tranquilas, agora já estava achando que seria considerada uma refugiada, e que nego ia querer nossos corpitchos como pagamento por ter entrado no país!

Mas como a falta de opção faz maravilhas na hora de decidir alguma coisa, fomos andando com a tiazinha, e no final ela foi nos tranquilizando bastante. Foi falando que também tinha duas filhas da nossa idade, e por isso estava nos ajudando, e que morava na Argentina mas tinha uma casa em Villazon e de tempos em tempos tinha que ir lá para ver como as coisas estavam, etc...

Sei que fomos andando por um bom tempo, andando rápido na medida do possível (e eu digo realmente na medida do possível, pois não sei se era tensão, o peso da mochila ou a altitude que já tava começando a pegar, porque eu e Roxy não conseguíamos respirar direito. Tentávamos, sempre que possível, dar uma paradinha para dar aquela "arfada" de ar, e que nada era a mesma coisa.

Chegamos ao portão que separa os dois países (e mais uma vez informo que as fotos são by Google, embora o lugar é esse mesmo). Não tava no melhor dos climas para tirar a câmera do bolso e turistamente tirar fotos por aí.

O portão é o que está lá no ínício do post. Agora, imagina ele no breu total (isso porque já eram quase 8 da manhã, e parecia 4).

O guardinha argentino, todo uniformizado, carimbou o passaporte e pronto. Nenhuma fila, nenhum problema. Mas o tinha uma zona do cão no guichê da Bolívia para carimbar o passaporte (fico me perguntando até hoje porque tem tanta gente querendo entrar na Bolívia).

Parecia meio cena de filme. Uma salinha de concreto batido, umas 3 luzinhas acesas, um monte de guardas com cara de índio, com uma expressão de simpatia e delicadeza semelhante à do Júnior Baiano, e na parede alguns quadros espalhados: uma cruz, o de uma santa deles lá, o do mapa da Bolívia e o do Evo Morales, esse último em moldura dourada e colocado em destaque no centro da parede.

Consideração Boliviana 4: Na Bolívia, Evo Morales é assim com Deus e o povo do céu de lá. Inclusive, a julgar pelas fotos, manda mais na hierarquia que Jesus.

Fui preenchendo o documento de entrada no país enquanto esperava na fila e assistia, tensa, um dos guardas ser a grosseria em pessoa com quase todos os gringos da fila. Um carinha americano, então, foi tratado com um desprezo sem tamanho.

Consideração Boliviana 5: Para os bolivianos, americano é dalit - intocável do pior tipo.
Só que, quando chega a nossa vez, e a gente entrega o passaporte, o tiozinho da "polizia de imigración" só olha nosso documento, diz "Oh, Brasileñas! Bienvenidas!", dá até um sorrisinho (!!) e libera a gente sem problemas. Nada como o charme da mulher brasileira para melhorar a relação entre as nações!

Tudo tranquilo, fomos subindo as ruas de Villazón (cidadezinha pobre toda a vida) para procurar uma casa de câmbio e a estação de trem até Uyuni.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um vislumbre da Bolívia: viajando de ônibus até a fronteira!




A viagem tava tranquila, não tava? Quer dizer, tirando o stress no aeroporto, tava tudo lindo, né?

Pois é... Alguém lá em cima olhou pra gente e também achou que tava facilitando demais a nossa vida...

Bom, fomos até La Quiaca, divisa com Bolívia.

Aí entramos no primeiro dos vários conceitos que formularíamos posteriormente sobre a Bolívia, e vou descrevê-los a vocês.

Primeira consideração boliviana: Bolívia significa "Problema". Parece tipo um daqueles feitiços de filmes de Indiana Jones, que basta você pronunciar o nome do país ou qualquer coisa relacionada a ele dá tudo errado? Então...


Escolhemos o ônibus que saía à meia noite de Salta. Escolhemos os lugares da última fila, pois o ônibus não tinha banheiro (e no fim das contas achei que isso era mais uma vantagem do que algo ruim), pois, ao invés de quatro poltronas (duas de cada lado), eram cinco, com uma de frente para o corredor. Contávamos, assim, do ônibus estar mais vazio (a cidade toda estava, naquela época. E dentro de nossas cabecinhas de alpiste, não tem tanta gente assim querendo ir para a Bolívia, né?) e de podermos nos espalhar pelos bancos.


E realmente o ônibus partiu assim, bem vazio, com umas dez cabeças dentro, e quase ninguém lá trás. Ô alegria!!!!!!! Eu e Rochane já saímos nos acomodando confortavelmente, cada uma de um lado!

Só que o ônibus fez uma parada num fim de mundo qualquer (não tinha indicando isso no roteiro, quando compramos), e de repente o ônibus se encheu com vários, mas vários bolivianos!!!!!!

Todos com a mesma cara redonda de índio, cabelinho espetado e enrolados naquelas mantas coloridas deles. E, acredito eu, se eles tomaram banho nos últimos cinco dias, esqueceram de lavar as roupas. Uma catinga só!

Segunda consideração boliviana: em qualquer ônibus que opere na Bolívia, ou que leve bolivianos dentro dele, como era o caso, a capacidade máxima de passageiros dentro do ônibus será sempre avaliada em quantos conseguem entrar, e não na quantidade de assentos disponíveis. Portanto:

Caso 1: esqueça se o seu assento é numerado. Se você não chegar antes e tiver alguém sentado no seu, viaje em pé, fio.

Caso 2: Se você tiver obtido a graça divina de chegar antes e sentar no seu lugar bonitinho, nada impede que do seu lado sente uma mãe com 4 crianças, todas elas no colo dela (e sempre vai ter uma que vai acabar escorregando para o seu). Também nada impede do marido dela ficar de pé, na sua frente, com a barriga gorda no seu ângulo de visão, a mão se apoiando no seu encosto e de cair em cima de você em cada freada brusca. Ah, sim, isso é normal e eles não vão pedir desculpas. Os incomodados é que se mudem.

Chegaram então quatro bolivianos. Três se instalaram nos bancos ao nosso lado (ficamos, portanto, espremidíssimas) e o quarto, uma criança, sentou com a mãe no nosso lado. Até aí, tudo bem, direito deles.. Mas dois deles estavam carregando volumes enormes sei lá de que ( acho que foram os bolivianos que deram origem à expressão "sacoleiros". Não vi um, em toda a minha viagem, que levasse algo parecido com uma mala ou bolsa de viagem. Todos enrolam suas bacagens naqueles panos coloridos, e amarram com uma fita para carregar), e simplesmente acomodaram os trecos deles ali, no espaço mínimo em que a gente estava.

Terceira Consideração Boliviana: Os ônibus na Bolívia (e aquele de Salta, que foi o único fora do país que vi acontecer isso) tem aquele espaço na parte inferior para você acomodar a bagagem, mas para colocar lá você tem que dar uma "propina" (gorjetinha no valor irrisório de 2 pesos por bolsa) para colocar lá. Mas que nenhum boliviano coloca, não sei se por pão-durice, porque o povo é pobre ou os dois juntos. E o que acontece é que eles, que já são sempre em número superior que os assentos dos bancos, ainda levam suas mil tralhas lá pra cima, e que vão acomodando nos pés deles, no colo deles ou no corredor do ônibus. Então, mais uma vez, se você chegou atrasado e perdeu seu lugar, por favor arrume um lugar no corredor e divida-o amavelmente com as tralhas dos outros - sem pisar, por favor, senão nego te olha de cara feia!

Inclusive, cenas como a abaixo são super comuns. Se você presenciá-las, não se surpreenda - e nem reclame!




Resultado: cinco lugares, eu e minha amiga, 4 Evo Morales e várias tralhas. Deliciosas 7 horas de viagem!

Ah, esqueci de dizer... Vocês lembram de ter viajado alguma vez nos últimos lugares de um ônibus? Pois é... Eles não reclinam!

PS: as fotos são meramente ilustrativas, by Google. Estávamos meio boladas para tirar fotos de lá (visto que éramos as únicas que não tinham cara de índio no ônibus). E não seria mentira também dizer que se a gente corresse o risco de tirar o braço do lugar para procurar a câmera seria difícil conseguir colocá-lo de volta.



Dicas importantes sobre ônibus na Argentina...


Acabado o passeio fofo e mágico, era hora de seguir o nosso roteiro. Como íamos até a Uyuni, cidadezinha no meio do deserto da Bolívia, e a viagem até lá durava o dia inteiro, optamos por comprar uma passagem de ônibus de Salta até La Quiaca, ainda território argentino, cruzar a fronteira até Villazón, trocar dinheiro pela moeda local deles e de lá pegar um trem até Uyuni.


A viagem de Salta até La Quiaca durava umas 7 horas. Então, compramos a passagem para a noite, pois iríamos dormindo e economizaríamos uma estadia.

Informação importante sobre os meios de transporte argentinos. Quando eu estava pesquisando na internet sobre ônibus, vi muita gente reclamando sobre os ônibus deles e tal, e honestamente devo dizer que os nossos são muito melhores. Mas pelo menos, em termos de variedade de companhias e de horários eu não pude reclamar.

Compramos a passagem no guichê da rodoviária de Salta às 17:00, e viajamos na meia noite do mesmo dia. Haviam várias companhias que iam para La Quiaca e diversos horários a disposição, de modo que nosso medo inicial de não encontrar passagens acabou.

Caso quem queira procurar pela internet, um site muito bom é http://www.plataforma10.com/

Lá é só você marcar a cidade de origem e destino e data, e ele informa se existe uma linha que faça esse trajeto, qual a companhia e quanto custa. As vezes ele é meio falho dependendo do lugar, mas já ajuda a dar uma idéia na hora de calcular o trajeto da viagem e os preços. A nossa passagem, honestamente não lembro quanto foi (aconteceu tanta coisa depois disso que essa informação se perdeu na minha cabecinha em meio ao estresse) mas lembro que foi mais barato que o site, inclusive.

Agora, conforto... bem... Aí são outros quinhentos...